Pesquisas mostram que idade e condições de exposição influenciam a aprendizagem de uma nova língua; em escola do Piauí, crianças a partir de um ano têm contato com o inglês por meio de histórias, brincadeiras e experiências sensoriais
Antes mesmo de aprender a ler e escrever na língua materna, uma criança pode começar a construir repertório em um segundo idioma. Nessa fase, porém, o contato com uma nova língua não precisa passar pela memorização de regras gramaticais, listas de palavras ou pela tradução. Brincadeiras, histórias, músicas, objetos e situações do cotidiano podem criar oportunidades para que palavras e expressões sejam associadas diretamente a experiências e significados.
A idade em que esse contato começa é um dos fatores estudados por pesquisadores da aquisição de uma segunda língua. Uma pesquisa publicada em 2021 na revista científica Cognition, com dados de mais de 1,1 milhão de pessoas, encontrou evidências de que a capacidade de aprendizagem da sintaxe de um segundo idioma permanece elevada até o fim da adolescência, quando começa a apresentar declínio. O trabalho ampliou um estudo anterior, de 2018, que havia analisado cerca de 670 mil participantes.
Começar cedo, no entanto, não é o único fator envolvido. Pesquisas sobre desenvolvimento da linguagem também têm chamado atenção para as condições em que ocorre a exposição ao idioma. Um estudo publicado em 2024 no Journal of Applied Developmental Psychology, realizado com 584 crianças de 2 a 4 anos em ambientes de Educação Infantil bilíngue na Holanda, identificou uma relação positiva entre a quantidade de exposição ao inglês no ambiente escolar e o crescimento do vocabulário receptivo e expressivo nesse idioma. O estudo levou em consideração também o contato das crianças com as línguas em casa.
Além da quantidade de exposição, a qualidade das interações também é considerada relevante para o desenvolvimento da linguagem na primeira infância. Uma revisão científica publicada em 2023 na Frontiers in Psychology destaca, entre outros aspectos, a diversidade do vocabulário, a reciprocidade nas interações e as oportunidades de conversação entre adultos e crianças.
É essa lógica de exposição frequente e contextualizada que orienta a metodologia do Twice Ensino Bilíngue adotada pelo Colégio Lerote, no Piauí. Desde 2024, a escola utiliza o programa bilíngue voltado a crianças de 1 a 5 anos, na qual o inglês é incorporado a atividades e interações da rotina escolar. A proposta é fazer com que a criança estabeleça relações entre o que ouve e aquilo que vê, toca, faz ou vivencia, reduzindo a necessidade de recorrer constantemente à tradução.
A metodologia do sistema de ensino bilíngue do Twice utiliza materiais didáticos estruturados por faixas etárias a partir de um ano de idade (Toddlers e Kinder) e incluem storybooks, flashcards, fantoches de mascotes, acervo de músicas na plataforma Twice e kits de materiais concretos e multissensoriais. Os recursos trazem ludicidade permitindo associar o vocabulário a situações e experiências do cotidiano, enquanto histórias, músicas, brincadeiras e atividades ampliam as oportunidades de contato com o idioma.
Os professores recebem formação para conduzir essas experiências de imersão e incorporar o inglês a diferentes momentos da rotina, estimulando a compreensão e a comunicação sem recorrer continuamente à tradução. A instituição também mantém uma coordenação específica para acompanhar o planejamento pedagógico e a aplicação da proposta bilíngue.
“Buscamos fazer com que o inglês integre a rotina da criança de forma natural, seja nas brincadeiras, nas histórias ou nos projetos. O resultado aparece na autonomia e na segurança com que os estudantes mobilizam o idioma para aprender e se comunicar, levando esse repertório também para dentro de casa. Essa continuidade, desde os primeiros anos da Educação Básica, é o que consolida o aprendizado”, afirma Ginê Ferro, coordenador do Ensino Bilíngue do Colégio Lerote.
Na Educação Infantil, a escola adota a metodologia do Twice Ensino Bilíngue. Segundo Vanessa Codecco, especialista em bilinguismo e gestora pedagógica do Twice, a associação entre idioma e experiência é especialmente importante nessa etapa.
“A criança assimila o idioma por meio dos sentidos e de associações diretas com o ambiente e a rotina. Estímulos táteis, visuais e auditivos ajudam a relacionar palavras, expressões e situações concretas de comunicação, sem a necessidade de traduzir mentalmente cada palavra. Aos poucos, o idioma passa a fazer sentido dentro das situações que ela vivencia”, explica Vanessa.
Nesse modelo, o contato com o inglês não fica restrito a um momento específico da grade. Histórias, músicas, brincadeiras, projetos e interações ampliam as oportunidades de exposição ao idioma ao longo da rotina escolar. Para crianças que ainda estão construindo seu próprio repertório na língua materna, aprender uma segunda língua não se restringe a tradução de uma palavra para outra, mas pela possibilidade de atribuir significado ao que ouvem a partir das experiências que vivem.