Um estudo publicado em 2026 na Academia Mental Health and Well-Being analisou como ferramentas digitais com inteligência artificial podem ser utilizadas no acompanhamento da saúde mental de estudantes do ensino superior. Os investigadores avaliaram a plataforma StudentPulse, que realiza pequenos “check-ins” sobre bem-estar, estado emocional e dificuldades académicas, oferecendo respostas e recomendações imediatas apoiadas por IA. O trabalho conclui que estas tecnologias devem ser construídas com base em evidência proveniente da psicologia cognitiva, psicologia positiva e princípios de utilização ética da tecnologia.
Entre os recursos considerados relevantes estão perguntas de autorreflexão, respostas curtas e personalizadas, estímulo à metacognição e encaminhamento para serviços de apoio quando necessário. Os autores defendem que estas ferramentas podem favorecer a identificação precoce de dificuldades psicológicas e reduzir a pressão sobre os serviços universitários. Alertam, contudo, para riscos relacionados com privacidade, confidencialidade, erros de interpretação e “alucinações” produzidas por sistemas de IA. O estudo também não avaliou a eficácia clínica da plataforma, tendo analisado sobretudo o seu desenho e fundamentação psicológica.
Para o neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela, a inteligência artificial pode funcionar como instrumento complementar de prevenção e acompanhamento, mas não deve ser confundida com avaliação clínica. “A vantagem da IA está na capacidade de identificar padrões, estimular autorreflexão e sinalizar alterações antes que o problema se agrave. Mas saúde mental envolve contexto, história individual e interpretação clínica. Um algoritmo pode auxiliar a decisão, não substituir o profissional”, explica.
O investigador considera particularmente importante o papel da metacognição, isto é, a capacidade de observar e avaliar os próprios pensamentos e estados emocionais. “Quando o estudante responde regularmente a perguntas sobre ansiedade, motivação, sono, integração social ou desempenho, começa também a reconhecer padrões no próprio comportamento. Esse processo pode melhorar a autoconsciência. O risco surge quando a tecnologia fornece uma resposta errada, excessivamente simplificada ou transmite ao utilizador a sensação de que recebeu um diagnóstico.”
A investigação reforça, assim, uma tendência crescente no ensino superior: utilizar tecnologia para ampliar o acesso ao apoio psicológico sem retirar o elemento humano da saúde mental. Para Fabiano de Abreu Agrela, “o futuro não está em escolher entre psicólogo e inteligência artificial, mas em perceber como a tecnologia pode ajudar o profissional a intervir mais cedo e com melhor informação”.
Fonte: Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, investigador e neurocientista com formação nas áreas das Neurociências, Psicologia, Neuropsicologia Clínica e Ciências da Saúde. É Diretor Científico do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, membro da Society for Neuroscience, da Royal Society of Medicine, da Royal Society of Biology e Sócio Agregado da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa.