Empreendedora do Nordeste cria “Netflix” cristã para crianças
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Por: DIÁRIO DA MANHÃ, Publicado em: sexta, 21 de agosto de 2026

A pergunta que muitos pais fazem atualmente não é mais se os filhos vão usar telas, mas o que eles vão assistir quando estiverem diante delas. Em meio à avalanche de vídeos, desenhos, jogos e recomendações automáticas que disputam a atenção das crianças, uma empreendedora brasileira decidiu criar uma alternativa: uma espécie de “Netflix infantil cristã”, em que os pais escolhem não apenas o conteúdo, mas também os valores aos quais os filhos estarão expostos.

Essa é a proposta da Cordeirinho TV, uma plataforma única no Brasil ao reunir, em uma estrutura própria, entretenimento infantil, conteúdo bíblico, educação e ambiente protegido, sem publicidade e sem a lógica das plataformas abertas. Criada pela empreendedora digital, a baiana Paloma Almeida, o produto é direcionado para crianças de 0 a 10 anos.

 

A ideia chega em um momento em que o uso de tecnologia na infância deixou de ser apenas uma questão de entretenimento e passou a fazer parte das discussões sobre educação, segurança e desenvolvimento. 

Uma pesquisa da Serasa ajuda a dimensionar o tamanho dessa preocupação: 85% dos pais e responsáveis entrevistados afirmam incentivar o acesso das crianças a conteúdos educativos nas plataformas digitais. Ao mesmo tempo, 56% dizem fazer apenas supervisão parcial do uso da internet pelos filhos. É justamente nesse espaço entre “tirar a criança da tela” e “tornar a tela uma experiência melhor” que Paloma identificou uma oportunidade.

 

Uma ideia que nasceu antes dos filhos

 

A trajetória de Paloma também foge do caminho tradicional do empreendedorismo em tecnologia. Com formação em odontologia e experiência em marketing, gestão e negócios digitais, ela começou sua atuação empresarial à frente de uma agência de publicidade em Salvador.

O projeto que viria a se transformar na Cordeirinho, porém, nasceu de uma inquietação pessoal: a percepção de que nem tudo o que é apresentado como conteúdo infantil necessariamente corresponde ao tipo de experiência que uma família deseja oferecer aos filhos.

“A odontologia foi meu ponto de partida, principalmente pela disciplina e pelo rigor adquiridos durante os anos de formação. Mas percebi que meu propósito profissional estava cada vez mais ligado à gestão, ao marketing e à criação de negócios. A Cordeirinho nasceu de uma preocupação genuína com aquilo que as crianças consomem”, explica Paloma.

Mais do que uma mudança de profissão, a trajetória deu origem a uma combinação pouco convencional: conhecimento de saúde, estratégia de marketing, gestão digital e uma plataforma voltada à formação infantil e à fé cristã.

 

Em vez de disputar atenção, disputar influência

 

A diferença da Cordeirinho está menos na existência de desenhos infantis e mais na proposta de curadoria. Em vez de colocar a criança diante de um catálogo amplo e deixar algoritmos definirem o próximo vídeo, a plataforma foi estruturada para oferecer um ambiente previamente selecionado.

O modelo acompanha uma preocupação que vem crescendo entre famílias e especialistas: como fazer com que a tecnologia seja utilizada de maneira mais segura e intencional durante a infância.

Um estudo do UNICEF Innocenti, ECPAT International e INTERPOL divulgado em 2026 mostrou a dimensão dos riscos do ambiente digital: no Brasil, 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos,  cerca de 3 milhões, foram vítimas de exploração ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de um ano. O dado não diz respeito especificamente ao consumo de vídeos infantis, mas evidencia o tamanho do desafio de proteção das crianças no ambiente digital.

Na Cordeirinho, a proposta é combinar entretenimento com conteúdos que trabalham fé, valores, histórias bíblicas, música e aprendizado. A plataforma também aposta em recursos destinados aos pais, permitindo maior controle sobre a experiência digital das crianças. Para Paloma, a tecnologia não precisa ser vista como inimiga da infância.

“Nosso objetivo é usar a tecnologia como aliada da família. Os pais precisam ter tranquilidade para entregar uma tela aos filhos sabendo que existe uma intenção por trás daquele conteúdo.”

 

“Da solução para famílias à expansão para escolas e empresas”

 

A ideia também ganhou escala comercial. O ecossistema construído por Paloma já ultrapassou 10 mil assinantes digitais.  Em períodos de lançamento, a operação chegou a registrar cerca de R$ 150 mil em faturamento em sete dias, com aproximadamente 3 mil novos assinantes no período. O desempenho das vendas digitais e a eficiência operacional renderam ao negócio premiações formais por volume de transações em grandes plataformas de tecnologia financeira do mercado, como Kiwify e Perfect Pay.

Com o crescimento da base de assinantes, surgiu também a oportunidade de levar a Cordeirinho para além do ambiente doméstico. A empresa passou a desenvolver um modelo voltado a escolas e empresas, ampliando o público da plataforma e criando novas formas de acesso ao conteúdo. No modelo B2B, a Cordeirinho pode ser adotada por instituições de ensino como recurso complementar ou oferecida por empresas como benefício aos filhos de seus colaboradores.

“A demanda das famílias nos mostrou que havia espaço para uma solução como essa. A partir daí, começamos a perceber que escolas e empresas também poderiam se beneficiar da proposta”, explica Paloma.

A plataforma chegou ao Colégio Ideal, onde os diretores avaliaram alternativas para ampliar o pacote de benefícios oferecidos aos colaboradores e passou a oferecer a Cordeirinho TV como uma opção voltada aos filhos dos funcionários. A decisão, segundo Sandrine Sousa, gestora do colégio, também levou em conta a preocupação dos pais com a qualidade e a segurança do conteúdo consumido pelas crianças.

“Incluir a Cordeirinho TV no nosso pacote de benefícios para colaboradores trouxe um ganho imensurável para o clima organizacional. Saber que os filhos estão consumindo um conteúdo seguro e educativo traz tranquilidade para os pais durante a rotina de trabalho”, afirma Sandrine.

A experiência ilustra uma frente de expansão que acompanha uma tendência já consolidada no mercado global de benefícios empresariais e bem-estar corporativo, setor que movimenta mais de US$ 50 bilhões no mundo. Nesse cenário, as empresas buscam soluções capazes de contribuir não apenas para a experiência profissional, mas também para o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal dos colaboradores.

 

Uma nova disputa pelo tempo de tela

 

A Cordeirinho entra em uma discussão maior sobre a infância contemporânea: não se trata apenas de quanto tempo uma criança passa diante de uma tela, mas de como esse tempo é ocupado.

Dados recentes mostram que a presença das telas já faz parte da rotina de crianças pequenas. O estudo IELS 2025 apontou que 50,4% das crianças brasileiras participantes usam dispositivos digitais diariamente, sem considerar a televisão.

Nesse cenário, a estratégia da Cordeirinho é transformar aquilo que normalmente é visto como problema, o tempo de tela, em uma oportunidade de aprendizado e convivência familiar.


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